Em qualquer tipo de relacionamento, existe uma tendência do comportamento humano, que é influenciado pelo nosso próprio ego, em querer controlar aquele que estamos nos relacionando. Os motivos que nos levam a agir dessa maneira são bastante complexos e variados. Medo, apego, vaidade, orgulho e busca pela satisfação, são alguns exemplos desses vários motivadores. Entretanto o mais importante é ter consciência que essa tendência existe, e mais importante ainda é estar atento para que isso não prejudique a qualidade dos relacionamentos que estamos vivendo.
A mente utiliza vários tipos de mecanismos inconscientes e subconscientes para alcançar esse objetivo. Tratam-se de mecanismos que tem a finalidade de prender a atenção de uma ou mais pessoas, ou de mantê-las sob o seu controle, os quais descriminaremos a seguir. Esses mecanismos em geral são desenvolvidos de acordo com a influência social e familiar.

- O coitadinho: É um mecanismo passivo. Trata-se daquela pessoa que assume a postura de procurar chamar a atenção pela compaixão dos demais. É aquela pessoa que está sempre se lamentando e com problemas. Para um coitadinho são comuns frases do tipo: “A minha vida está insuportável”, “Estou sobrecarregado de trabalho”, “Você não tem pena de mim?”, “Tanta coisa horrível me acontecendo e você não estava por aqui”.
Os tipos de frases irão variar de acordo com o ambiente, ou seja, as estratégias utilizadas no ambiente familiar serão diferentes das usadas no ambiente profissional, nos ciclos de amizade e etc. A estratégia do coitadinho é muito simples, obter a atenção por intermédio da solidariedade alheia, e encontrar com um coitadinho é certeza de uma conversa negativista, onde ele faz de tudo para sensibilizar com a sua deprimente condição. É claro que existem as pessoas que não utilizam esse mecanismo e que estão realmente passando por uma fase difícil, e devemos ter cuidado para que não haja confusão. O coitadinho está sempre nessa condição, ou seja, é raro encontrar um coitadinho que não esteja sempre passando por problemas.

- O distante: Trata-se de um outro mecanismo que se assemelha muito com o coitadinho, porém com uma diferença fundamental. O distante não expõe o problema, ele apenas dá a entender que está com um problema induzindo às pessoas a perguntarem o que está acontecendo. Quanto mais a pessoa pergunta, mas ele faz mistério e entra em introspecção, querendo no fundo que o outro continue querendo saber o que está acontecendo. Além disso, o distante usa essa mesma técnica em todas as conversas que desenvolve, sendo muito difícil obter uma resposta objetiva sua. Se perguntamos sobre as suas férias, ele pode dizer: ”Andei viajando por aí”. A estratégia é induzir o interlocutor a fazer perguntas suplementares, mesmo que se trate de assuntos simples, atitude que acaba prendendo a atenção.  “Mas viajando para onde?” e ele responde: “Por muitos lugares”. Em geral as pessoas que assumem esse mecanismo tem dificuldades em se comunicar e acabam usando o silêncio para chamar atenção. Porém é importante ter a consciência que nem todos que se mostram vagos ou se recusam a nos dar informações estão usando o mecanismo do distante; pois a pessoa pode realmente desejar permanecer anônima por algum motivo. Assim como no coitadinho, o que diferencia uma pessoa que quer ficar anônima e uma que esteja utilizando o mecanismo do distante é a intensidade. O distante está sempre envolvido em uma áurea de mistério.

- O sabe-tudo: É um mecanismo que tem o objetivo de obter atenção, controle e reconhecimento. O sabe-tudo está sempre querendo ser o centro das atenções nos grupos sociais, faz questão de demonstrar conhecimentos nas mais variadas áreas que são mencionadas. Isso quando ele mesmo não propõe os temas das conversas. Em geral o sabe-tudo não permite que ninguém fale por muito tempo, está sempre monopolizando a conversa e impondo a sua opinião. Para ele ninguém é capaz de chegar a conclusões inteligentes sem a sua ajuda, e o seu maior prazer é ter uma ou mais pessoas ouvindo as suas explicações e concordando com suas conclusões. Porém ele mesmo normalmente não concorda com a opinião dos demais, e sempre tem algo para acrescentar ou corrigir, como uma deixa para iniciar a sua demonstração de sabedoria.

- O palhaço: Assim como o sabe-tudo tem o objetivo de ser o centro das atenções. Apenas a sua tática é que se diferencia. O palhaço como o próprio nome diz é o animador oficial do grupo. Está sempre fazendo uma brincadeira ou contando uma piada, o que até aí é muito saudável. O problema é a falta de limites, o que leva o palhaço muitas vezes a ser inconveniente com as suas brincadeiras que visam prender a atenção dos demais. É extremamente difícil saber quando um palhaço está falando sério, pois ele está sempre fazendo piada de todos os assuntos ou está sempre tentando pregar uma peça em alguém.

- O sedutor: Normalmente é um mecanismo utilizado por pessoas com atributos físicos que se destacam da grande maioria, ou são dotados por uma sensualidade e capacidade comunicação acima da média. O sedutor está sempre procurando ser desejado, usando vários comportamentos e artifícios para chamar a atenção dos demais nesse sentido sexual.  Está sempre vestido com roupas excessivamente sensuais, e normalmente apresenta um comportamento que visa chamar atenção de outras pessoas pelo desejo sexual. Estão sempre se insinuando para obter algo, e usam a sua sensualidade para controlar os que se deixam seduzir. Em alguns casos chega a efetivar o ato sexual para manter o controlado sob seu comando por mais tempo. Em geral as pessoas que assumem essa postura são extremamente volúveis e desleais, sendo incapazes de manter um relacionamento por muito tempo.

- O interrogador: Trata-se de um mecanismo mais ativo, que tem como objetivo controlar outras pessoas pela crítica direta. O interrogador leva o seu alvo a se sentir fiscalizado constantemente, incapaz de cuidar dos próprios afazeres e responsabilidades. Está sempre passando a impressão que todos estão cometendo erros enormes na vida e ele é o responsável em corrigir a situação. A sua estratégia é sempre tecer críticas que deixem o alvo inseguro e desequilibrado, na esperança de que ele adote a sua visão de mundo e dessa maneira estabelecendo um certo controle e recebendo atenção. No mundo do interrogador, só é possível que as pessoas ao seu redor vivam bem se estiverem sob a sua supervisão e orientação. Nesse mundo ele é o herói e o único que presta atenção e tem a responsabilidade de providenciar para que tudo seja feito com cuidado e perfeição.

- O intimidador: É o mecanismo mais agressivo de todos, o qual pode-se chegar até a efetiva agressão física. A estratégia básica do intimidador é fazer com que os demais se sintam constrangidos, ameaçados e até em perigo. Ele basicamente fala e age de maneiras que sugerem que a qualquer momento ele poderá explodir de raiva ou tornar-se violento, como por exemplo contando casos em que feriu outras pessoas ou demonstrando extensão da sua raiva quebrando móveis e arremessando objetos. E realmente é capaz de fazer tais coisas quando é contrariado. Trata-se de um mecanismo que visa obter além da atenção, o controle sobre outras pessoas, pois é normal ficar atento e procurar não contrariar uma pessoa que pode descontrolar-se a qualquer momento. Estar convivendo com um intimidador resulta em um constante sentimento de estar sendo controlado e ameaçado, o ambiente torna-se sinistro, ameaçador e até descontrolado.
Estar ciente desses mecanismos é fundamental para que possamos estar atentos em não tentar controlar ou ser controlado nos diversos relacionamentos que vivemos. Além disso,  importante ter consciência que apesar de todos termos os mesmos objetivos existenciais, os caminhos e lições para alcançar esses objetivos podem ser muito diferentes para cada um. Além de cada um ter o seu ritmo próprio e maneira particular de aprendizado.

Saber se relacionar é sinônimo de deixar que o outro seja livre. Respeitar o seu momento e o seu ritmo. Se eu consigo ver algo que uma outra pessoa não consegue, não devo forçar a barra e pressionar. No tempo certo ela verá o que hoje não consegue, e forçá-la a mudar antes do tempo pode trazer sérios danos ao seu equilíbrio interior e ao seu crescimento. Aconselhe sim, mas sempre deixe que o seu próximo faça o que achar melhor, pois ele mesmo que arcará com as conseqüências dos seus atos.
Como exemplo gostaria de citar uma estória que retrata bem essa situação. “Um jovem observava o casulo de uma antiga lagarta, que agora começava a se romper para tornar-se uma borboleta. No meio do processo o jovem percebeu que a pequena borboleta estava tendo uma tremenda dificuldade em romper o casulo e aí resolveu ajudá-la.
Grande foi a sua surpresa quando percebeu que a borboleta depois de ter o seu casulo aberto, não conseguiu sair voando de dentro dele e ali mesmo morreu. Depois disso o jovem compreendeu que o esforço que estava fazendo para romper o casulo era necessário para que ela estivesse pronta para voar.”

Existe uma regra básica que pode e deve ser aplicada em qualquer tipo de relacionamento que envolva outra pessoa:

“Seu mundo, meu mundo, nosso relacionamento”.

Ou seja, devemos respeitar a individualidade e o mundo do próximo e devemos fazer de tudo para que ele respeite o nosso, independente do relacionamento que está sendo vivenciado. E sempre que as atitudes do próximo invadir o nosso mundo, não respeitando os nossos limites e abalando o nosso equilíbrio, devemos tomar as atitudes necessárias. Não podemos e não devemos confundir “amor ao próximo” com “ser o capacho do próximo”, ou confundir “ser uma pessoa boa”  com  “ser uma pessoa boba”. Pois afinal, saber se relacionar comigo mesmo é fundamental para ser feliz.

Sabedoria e paz para todos,